“Delações podem estar próximas de alcançar o último andar do Judiciário” diz ex-diretor da Interpol

Amanda Nunes Brückner | 16/07/2019 | 6:05 AM | BRASIL
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O último alvo da Lava Jato

(reprodução) Governadores e megaempresários presos sem e chances de se livrarem de pesadas penas falam em delações. Ameaçam ou esboçam disposição de aderir a um acordo de cooperação e delatar.

Mas afinal, o que ainda poderia trazer de novidade — para cima, escalando — alguém que já se encontra no topo do topo da pirâmide alimentar do crime? Seriam apenas blefes? Ou tentativas de confundir a persecução penal?

Temos que perceber que a estrutura montada para o funcionamento do CRIME.GOV, isto é, do crime institucionalizado, já foi desmontada no Executivo e está sendo alvejada no seu braço do Legislativo, em suas mais altas esferas e extratos.

Mas algo nos faz crer que alguns ministros, tanto do STJ como do STF, sejam igualmente peças deste esquema. Afinal de contas, todo grande golpe, toda máfia, tem sua “equipe de limpeza”.

Quem não percebeu que alguns desses “deuses do olimpo”, em determinadas situações, parecem atuar mais para defender os grupos políticos que os indicaram do que para qualquer outra coisa?

Esse esquema de poder, de manutenção de poder, de loteamento do Estado, de exploração política das empresas estatais, de desvios de finalidade, de traições aos interesses públicos e nacionais, destrói as chances de desenvolvimento do país, mas rende bilhões para essas oligarquias, para essas elites anacrônicas que comandam o Brasil.

Se as últimas instâncias da Justiça forem comprometidas, teremos a desgraçada possibilidade de perdermos tudo o que conquistamos com a Lava Jato, e perderemos aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo, pois é no final da “partida” que a última instância se manifesta.

Essa gente se acha inatingível e joga com o povo, como se fôssemos peças num tabuleiro, ao seu bel prazer.

Quem afinal iniciaria um processo contra um ministro do STF?

Se presidentes da República, senadores e governadores se corromperam e estão incriminados, por que os ministros dos Tribunais Superiores (que foram indicados, escolhidos e nomeados por esses mesmos políticos corruptos) não se corromperiam? Vieram, por acaso, da Finlândia, da Suécia, de Marte?

Temos de iniciar um movimento sério para propor profundas mudanças no processo de escolha dos magistrados das altas cortes, totalmente despolitizado, bem como é imperioso o estabelecimento de um “recall” para esses altos magistrados.

Um partido, um governo e um presidente da República, respectivamente, sugere, indica e nomeia um cidadão com quarenta e poucos anos de idade para o STF, e a partir daí teremos, nós, sociedade brasileira, que aguenta-lo até os seus 70 anos, por quase três décadas?

Já imaginaram quanta omissão, quanta traição, quanta venalidade e quanto prejuízo se perpetra em 30 anos em uma cadeira da Alta Corte?

Nos livramos de um mau presidente ou de mau governador em 4 anos, mas temos que aturar essa “herança maldita” nos Tribunais por décadas. Isso sem falar que são eles os encarregados de processar e punir a si próprios.

Afinal, quem fiscalizaria o fiscal?

Sabemos muito bem que não pode haver castelos, nem tampouco figuras intocáveis em uma República.

Espero que essas delações, se realmente existirem, cheguem ao último “departamento” do CRIME.GOV, isto é, à “equipe de limpeza” montada nas altas esferas do nosso Poder Judiciário.


(Jorge Barbosa Pontes é Delegado de Polícia Federal e foi diretor da Interpol)

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