Em lockdown, Itália tem uma bomba social prestes a detonar: “Se em alguns dias, minha filha não puder comer um pão, vamos fazer uma revolução”


(observador.pt)

A tensão aumenta no sul de Itália, à medida que a quarentena pelo governo, em resposta à pandemia, começa também eles a fazer as suas primeiras vítimas sociais.

São cada vez maiores os relatos de pessoas que, por terem parado de trabalhar e por não terem o fazer habitualmente de forma legal [autônomos e informais], não têm dinheiro nem apoio do Estado.

Ao mesmo tempo, multiplicam-se nas redes sociais e através de mensagens de voz difundidas por grupos de Whatsapp os incitamentos à rebelião e a assaltos de supermercados, publicou o jornal Corriere della Sera [no último dia 17], que fala em “bomba social” prestes a detonar.

Na quinta-feira, dia 26, o Giornale di Sicilia revelou que a polícia e os carabinieri tiveram de intervir num supermercado Lidl de Palermo, depois de pelo menos 15 pessoas terem tentado sair com os carrinhos cheios de compras sem pagar.

Os preços nas prateleiras não correspondiam aos impressos nos folhetos promocionais, foi o que explicaram depois de detidos.

No Facebook, um grupo fechado chamado “Revolução Nacional”,


lançou um apelo:

“Quem estiver pronto para a guerra no dia 3 de abril, escreva aqui e vamos ser um grupo. Para nos fazermos ouvir, temos de atacar os supermercados como fazem na Síria e em Espanha. O verdadeiro protesto é apenas isso, para que eles entendam a que chegamos”.

De acordo com o La Repubblica, que citou um documento do Ministério do Interior, que alertava para o “perigo potencial de revoltas e rebeliões, espontâneas ou organizadas, especialmente no sul de Itália, onde a economia subterrânea e a presença generalizada do crime organizado são dois dos principais fatores de risco”.

A situação é de tal forma grave que Peppe Provenzano, o ministro para o Sul, admitiu em entrevista que tem medo e garantiu a tomada de medidas o mais rapidamente possível:

“Tenho medo que, com a continuação da crise, as preocupações que grande parte da população está a ter com a saúde, o rendimento e o futuro se transformem em raiva e ódio. Existem áreas sociais e territoriais frágeis e expostas. O orçamento público deve cuidar de todo o tecido social. E tem de o fazer agora”.

O governador da Campânia também já garantiu que vai ser preparado um programa de apoio especial — “Em alguns casos trata-se verdadeiramente de garantir o pão aos pobres”.

Será o caso do marido e da mulher que, esta semana, verbalizaram de forma bem audível o seu desespero em frente a uma dependência bancária, em Bari, também no sul do país:

“Não temos mais dinheiro, não temos mais nada!”.

O momento foi captado em vídeo, que foi depois partilhado nas redes sociais. Mais tarde, a família recebeu a visita de Francesca Bottalico, vereadora da câmara municipal com o pelouro da Assistência Social, que lhes levou dois sacos com compras e deixou uma promessa de ajuda:

“Se tiverem problemas, não vamos deixar-vos sozinhos. Mas vocês têm de nos dizer”.

Outro vídeo, desta vez gravado em Nápoles, está também a tornar-se viral.

“A minha filha está a comer um pedaço de pão com Nutella; se dentro de alguns dias a minha filha ou qualquer outra criança não puder comer esse pedaço de pão, vamos fazer uma revolução. Estou a dar a cara, porque nesta altura já nem quero saber se irão me prender.

Já passaram 20 dias e estamos a zero, o dinheiro desapareceu”, ameaça um homem, depois de mostrar a filha no enquadramento e de interpelar direta e “gentilmente” o primeiro-ministro, Giuseppe Conte.


 


 

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