‘Lágrimas de crocodilo’ diz ex-procurador da República

Amanda Nunes Brückner | 13/07/2019 | 10:59 AM | MÍDIA
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Carlos Fernando dos Santos Lima, um dos pilares da Lava Jato no país, falou sobre o choro de Rodrigo Maia após a aprovação (1º turno) da reforma da Previdência na Câmara dos Deputados.

Maia, que em outras ocasiões já demonstrou sua ambição em ser presidente da República, fez uma cena digna de novela mexicana.

Abaixo o texto do procurador:

Maia e as lágrimas de crocodilo

(Carlos Fernando dos Santos Lima – Procurador da República aposentado)

Dizem que o crocodilo chora ao abocanhar sua vítima num bote certeiro. Lágrimas lhe escorrem enquanto a esmigalha, tritura e a engole satisfeito.

Ao ver Rodrigo Maia chorando ao fazer a defesa do Centrão e, especialmente, de sua presidência na Câmara dos Deputados, logo após a aprovação do texto-base da reforma da Previdência, me deixou a mesma impressão.

Estava ali não alguém emocionado por ter feito algo bom para o País, mas um político exultante com o recado dado às elites do País: nós, da velha política, somos quem realmente têm poder para aprovar o que vocês precisam, desde que por um módico preço.

O recado foi certeiro, vejam que suas palavras não se dirigiram àqueles que vão pagar a conta da reforma, os trabalhadores, mas exclusivamente para a elite econômica e seus interesses, com a esperança de que esta lhes apoie na luta contra a mudança dessa forma de fazer política, ou seja, contra o que a Lava Jato representa.

Reforçando esse recado, certamente entre as mesmas falsas lágrimas, esse mesmo Centrão, que Maia finge ser uma instituição séria e inatacável, já mandou uma fatura prévia ao governo Bolsonaro na exigência de liberação de verbas para votar a reforma.

Liberar emendas previstas no orçamento para aprovar projetos não é tão imoral – ou criminoso – quanto distribuir cargos para que políticos e partidos possam roubar, como aconteceu nos governos anteriores, mas já mostra que Maia e o Centrão só pensam realmente na sua sobrevivência política, que também passa por fartos recursos públicos para suas pretensões eleitorais, e nunca no interesse geral do País.

Isso fica ainda mais evidente ao se perceber que logo após decidirem contra a aposentadoria especial de professores – e se há uma categoria que merece essa proteção é a dos professores – Maia e o Centrão passaram abertamente a defender um fundão eleitoral de 3,7 bilhões de reais para as próximas eleições.

O que fazem, portanto, é o que sempre fizeram, tirar da população parte de seus direitos para repassar parcela dos recursos públicos economizados para suas campanhas eleitorais caríssimas, seu estilo de vida pródigo e seus interesses privados e inconfessáveis.

Não se está aqui a dizer que a reforma da Previdência não é necessária, muito pelo contrário. A mudança no perfil demográfico e no mercado de trabalho impõe uma revisão dessas regras.

O que se quer enfatizar é que a condução dessa reforma pela Câmara dos Deputados esconde discussões necessárias e sérias, seriedade que sempre afugenta políticos.

Um exemplo disso é a falsa promessa que o Estado faz aos segurados. Não há qualquer estabilidade de longo prazo nas regras previdenciárias aprovadas nos últimos 20 anos, causando a cada reforma a sensação aos trabalhadores de que seus direitos, que na reforma anterior eram dados como certos, foram tungados pelo governo.

E essa reforma não é diferente, pois o mecanismo de correção automático da idade mínima foi retirado pelos deputados, o que tornará necessária outra reforma previdenciária daqui a 10 anos.

Mas essa retirada é útil para essa classe política, que derrama lágrimas de felicidade já antevendo novas chantagens contra o governo por ocasião dessa futura nova reforma.

Se há um ponto que Maia está certo e o de que nenhum investidor sério investirá em um país sem instituições e um regime democrático verdadeiro.

Somente esqueceu de dizer que nenhuma democracia é séria e estável quando comandada por uma classe política parasitária, completamente dissociada do interesse público. E foi exatamente essa classe política exaltada por Maia em seu discurso.

Pobre Brasil!


 

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