Nicolelis alerta: “Brasil corre o risco de ser a sede do surgimento do Sars-CoV-3”

20/03/2021

Situação do país é gravíssima. Se não escutarmos a ciência, políticos irão promover um ‘Apocalipse’

Brasil registrou 2.286 mortes em apenas 24 horas

(Miguel Angelo Laporta Nicolelis é médico, neurocientista e professor titular da universidade Duke (EUA) | considerado um dos maiores cientistas do mundo)
Em entrevista para a CNN Brasil, o cientista brasileiro ressaltou a situação trágica que o país atravessa:

As mortes registradas ontem (10 de março) equivalem a 20% de todas as mortes por coronavírus em todo o mundo, sendo que o Brasil tem 2,7% da população mundial.Os brasileiros estão morrendo 10 vezes mais do que em qualquer outro lugar, somos o epicentro da pandemia.Eu lamento dizer, mas somos o maior laboratório a céu aberto do vírus e nesse momento o maior cemitério do mundo.Com 70,80 mil novos casos diários, nós estamos dando a chance ao coronavírus de produzir milhões de mutações que irão levar invariavelmente ao aparecimento de novas variantes ou até de um novo vírus.

Se houver uma combinação genética ‘x’, podemos (em tese) ser a sede do surgimento do SarsCoV3.

As UTI’s pediátricas brasileiras começaram a ficar lotadas, chegando próximas ao colapso. A média de idade das pessoas internadas estão caindo para 30,40 anos em todos os hospitais do país.

Há um colapso iminente do sistema de saúde brasileiro em mais de 17 capitais, segundo reportagem da Folha/SP.

A cidade mais rica do país (São Paulo), com a maior estrutura médica do hemisfério sul, está à beira de um colapso sanitário. Eu nunca imaginei que eu veria isso na minha vida, na minha carreira de médico e cientista.

Como sair imediatamente deste cenário, se é que isso é possível?

Infelizmente não adianta. Diante da crise brasileira, não adianta começar a comprar vacina hoje, sendo que elas só chegarão em meses.Assim como o Reino Unido, a Nova Zelândia e outros países do mundo fizeram, a única solução pe entrar em um lockdown nacional.

A palavra lockdown se transformou em um palavrão no Brasil. Se criou todo um cenário para mitigar a palavra. Esse é o jeitinho brasileiro e numa pandemia, o jeitinho não funciona.

Ou a gente faz o que tem que fazer, que é fechar tudo por 20 a 30 dias, para reduzir drasticamente a taxa de transmissão do vírus ou não vamos dar conta.

O ritmo de vacinação nosso (200 a 300 mil doses por dia) é 10 vezes inferior ao que deveria ser. Assim como nos EUA, deveríamos estar vacinando 2 milhões de pessoas por dia.

Moro nos EUA há 32 anos e perdi um pouco do jeitinho brasileiro de falar sobre a realidade. Aprendi o jeitinho americano de falar diretamente.

O que está ocorrendo no Brasil é tudo lero-lero de político. As vacinas vão demorar meses para chegar a um nível de dezenas de milhões de doses.

Se nós não tomarmos medidas paralelas (inclusive fechando o espaço aéreo para evitar que outras variantes venham pra cá) e criar uma comissão nacional de manejo da pandemia (com o STF, Congresso, Governadores e a sociedade civil), o Brasil não terá perspectivas concretas de sair dessa crise em 2021.

Me desculpe o presidente do Senado, mas acredito que o senado [sozinho] não dá conta. (se referindo a um pronunciamento feito ontem por Rodrigo Pacheco).

Desde setembro do ano passado, quando eu participava como coordenador do Comitê Científico do Nordeste, eu alertei que os aeroportos brasileiros eram os mais abertos do mundo.

Variantes da Inglaterra e da África do Sul entraram no país sem que pessoas fossem testadas ou entrassem em quarentena quando chegavam ao Brasil. Permitimos que isso ocorresse durante meses.

Existem agora novas variantes extremamente perigosas, por exemplo a variante da Califórnia, que surgiu e gerou uma devastação no estado norte-americano. Essa variante está entrando livremente no Brasil.

A primeira medida seria fechar o espaço aéreo do Brasil durante algumas semanas ou testar e exigir quarentena ou uma prova de infecção daqueles que entram no país.

Durante 20 a 30 dias, também temos que reduzir o fluxo de pessoas pelas rodovias, fazendo bloqueios sanitários e testando todos para impedir que uma pessoa (por exemplo) saia de uma rodovia de SP e leve uma nova variante lá para o Rio Grande do Norte em questão de dias.

Resumindo, temos que restringir o fluxo e fazer um lockdown com o governo federal pagando para as pessoas ficarem em casa e para que os comerciantes e pequenos empresários possam sobreviver.

É assim que se faz e o Brasil tem dinheiro em caixa. O ministro da Economia pode não querer falar, mas temos uma reserva de mais de 300 bilhões de dólares, que é a nossa poupança.

Quando uma família precisa fazer um procedimento médico (por exemplo), ela pega o dinheiro da poupança. O Brasil precisa recorrer à sua poupança e pagar para que os brasileiros possam sobreviver nesta pandemia.

Novas mutações – Sars-CoV-3?

Isso é uma chance teórica. Se você começa a ter muitas mutações do vírus, e estamos dando esta oportunidade para o coronavírus, podemos ter um rearranjo genético que pode gerar uma nova forma. Essa forma pode ser ainda mais infecciosa e mais letal.
Se você tem uma nova variante (como a do Amazonas) e começa a vacinar as pessoas, essas vacinas começarão a dar conta das variantes anteriores, mas as novas cepas serão selecionadas e irão predominar no país.É como se eu receitasse um antibiótico de forma errônea para um paciente, facilitando assim a criação de bactérias multirresistentes. Isso foi dito por Darwin em 1859 e já estamos em 2021.No Brasil, parece que os políticos ainda não estão neste século.As sinapses políticas brasileiras não funcionam na mesma taxa de transmissão e mutação do coronavírus.Sou cientista há 40 anos e nunca imaginei que os cenários que ocorreram em 1918 (Gripe Espanhola) nos EUA e na Índia pudessem se repetir no mundo e que o Brasil (país que eu amo) pudesse ser o epicentro dessa tragédia mundial.O cenário é o seguinte: se o sistema de saúde brasileiro colapsar como um todo, as pessoas não vão ter para onde ir. Elas vão começar a morrer nas suas casas, nas ruas e nas portas dos hospitais.Aí teremos um colapso chamado FUNERÁRIO, que é a situação onde você não dá conta dos óbitos do país. Você simplesmente não consegue manejar o volume de vítimas, causando infecções secundárias bacterianas, contaminação de alimentos, contaminação da água e do lençol freático, enfim, você perde o controle do país.

 

 

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